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Direto do Blog: Conhecimento Visual .

Knowing was predicated on seeing.

(B. E. Mundy, Spain and the Imperial Ideology of Mapping)

Barbara Mundi, em seu livro Spain and the Imperial Ideology of Mapping (“A Espanha e a Ideologia Imperial de Mapeamento”) discute de maneira cuidadosa o posicionamento de Filipe II à cabeça do grande império espanhol durante a união das duas coroas. Ela defende, ainda nas primeiras páginas de seu livro, a seguinte afirmação:

“O saber estava baseado no ver”.

1562 g3290 ct000342Z Uma Descrição moderna e bastante precisa da América ou a quarta parte do Mundo 264x300

“Uma Descrição moderna e bastante precisa da América”. 1562, Diego Gutiérrez.

A afirmação é especialmente válida para o fim do século XVI e séculos seguintes. Antes da descoberta do Novo Mundo, o Império espanhol era paupável: uma viagem pela Espanha demorava alguns dias, a viagem até os Países Baixos (antes da indepenência) pela estrada espanhola demorava poucas semanas, e os súditos tinham acesso direto, mesmo que poucas vezes, ao rei. Porém, quando Filipe II assume o trono, seu Império é gigantesco. A América espanhola é tão grande e está tão distante que impede qualquer tentativa de ser visitada pessoalmente.

Reinando sobre terras muito distantes, Filipe II precisava encontrar uma maneira de governar seu Império. Ele, talvez mais que os outros monarcas europeus do mesmo período, valorizou a cartografia como algo indispensável para a manutenção de suas regiões. Educado no estudo da cartografia, a História mostra que ele conseguia inclusive fazer seus próprios rascunhos. Levando isso em consideração, Filipe II tinha acesso a centenas de textos e cartas sobre o Novo Mundo que chegavam constantemente à corte espanhola, mas a verdade é que os mapas eram vistos como o complemento ideal a essa produção textual.

Enchergar o Novo Mundo à distância era essencial, e a cartografia tinha o trabalho de resumir as principais informações que chegavam da América em imagens. Como vimos acima, o saber estava mesmo baseado no que era possível ver.

Novo texto publicado em http://fabiopaivareis.net/conhecimento-visual/

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  • 1 week ago
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Direto do Blog: Representações e ciência .

Representation is never neutral, and science is still a humanly constructed reality.

(J. B. Harley – Text and Context, The New Nature of Maps.)

J. B. Harley foi um dos historiadores da cartografia mais bem sucedidos do século XX. Mesmo antes de sua morte, carregava já uma aura mantida por inspirados seguidores de sua linha de pensamento. Não há como negar, de fato, sua contribuição para o desenvolvimento desta ciência. Ele foi o principal defensor da ideia de que mapas são e devem ser lidos como textos. Mesmo sem palavras, seu conteúdo passa informações tão claras que, assim como qualquer documento escrito, um mapa pode ser lido e analizado e criticado interna e externamente.

Em seu artigo Text and Context, publicado também na coleção de estudos The New Nature of Maps (A Nova Natureza dos Mapas, em português – uma homenagem póstuma ao investigador), Harley lança a importante frase, que simboliza algumas de suas principais ideias:

“A representação nunca é neutra, e a ciência é ainda uma realidade construída humanamente.”

O que o autor queria dizer é que mapas nunca são inocentes, desprovidos de interesses. Há aqueles que discutem a facilidade com que Harley utiliza termos absolutos como nunca e sempre, mas é difícil discordar da afirmação, principalmente em relação à cartografia histórica, sempre tão cheia de vontades. Na conclusão, ele nos lembra que a ciência é feita por nós, e por isso mesmo falha, ou (em uma visão mais positiva) em construção. Isto afeta não só os mapas, alvos de uma ciência cartográfica a pleno vapor na Europa moderna, mas também a nós, historiadores, a estudar hoje esses mesmos mapas.

A representação nunca é neutra.

Novo texto publicado em http://fabiopaivareis.net/representacoes-e-ciencia/

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  • 2 weeks ago
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Direto do Blog: Russos quebram todas as regras e tiram fotos em cima de pirâmides .

O texto da matéria é pequeno, mas as fotos são fantásticas.

Então, um grupo de russos foi ao Egito e escalou a Grande Pirâmide. De acordo com a história, eles chegaram lá cedo enquanto o complexo estava aberto, e esperaram nas sombras até as horas de visita acabarem e a noite chegar, então mais tarde eles escalaram até o topo e tiraram fotos. “Há muitas placas no topo da pirâmide de diferentes línguas, inclusive russo, e dizem que entre elas há uma assinatura do último tzar russo que escalou muito tempo atrás”.

Os seguranças não os viram, e eles desceram sem serem encontrados, lembrando que de acordo com as leis do Egito há uma possível sentença de dois anos para esse tipo de atividade.

Mais fotos a partir do link abaixo.

Fonte: On top of the Pyramid (English Russia)

Novo texto publicado em http://fabiopaivareis.net/russos-quebram-todas-as-regras-e-tiram-fotos-em-cima-de-piramides/

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  • 2 months ago
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Direto do Blog: Coreia do Norte coloca mísseis em modo de espera enquanto EUA afirmam que eles não são “tigre de papel” .

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Essa foi uma semana tensa entre Coreia do Norte e Coreia do Sul e Estados Unidos.  Após constantes ameaças e quebras de comunicação do regime norte-coreano, os EUA anunciaram que sobrevoaram o céu da Coreia do Sul com seus aviões Stealth B2, capazes de carregar bombas atômicas – uma verdadeira demonstração de força. Ao mesmo tempo, pediu que outras nações não ignorassem o poder de fogo de Kim Jong Un:

The U.S. official emphasized the danger posed by North Korea’s military and the unpredictable nature of its 30-year-old leader.

“North Korea is not a paper tiger so it wouldn’t be smart to dismiss its provocative behavior as pure bluster. What’s not clear right now is how much risk Kim Jong Un is willing to run to show the world and domestic elites that he’s a tough guy,” said the official, who asked not to be named. “His inexperience is certain — his wisdom is still very much in question.”

Quando o clima ficou definitivamente quente, o Ministro de Negócios Estrangeiros da Rússia entrou em cena pedindo calma a todos. Segundo matéria do Público, Serguei Lavrov disse que ”as mais recentes sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas foram aprovadas de forma ‘consensual’ e ‘adequada’ “, o que quer dizer que os EUA estariam passando dos limites, mais uma vez.

A verdade é que China e Rússia estão fadados a entrar no conflito para apaziguar ambas as forças, com a preocupação de os Estados Unidos estarem agora mexendo com quem eles não conhecem realmente. O mais provável é que tudo se acalme e volte ao que era antes, assim que a Coreia do Norte volte a receber alguns benefícios para se manter calma.

Fonte: North Korea puts rockets on standby as US official warns regime is no ‘paper tiger’ (NBC News)

Novo texto publicado em http://fabiopaivareis.net/coreia-do-norte-coloca-misseis-em-modo-de-espera-enquanto-eua-afirmam-que-eles-nao-sao-tigre-de-papel/

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Direto do Blog: A Dois Passos do Paraíso: matéria publicada no jornal A Gazeta .

O jornal A Gazeta (do Espírito Santo) deste sábado dia 23 de março de 2013 publicou um texto de minha autoria sobre a Serra das Esmeraldas na Capitania do Espírito Santo do século XVII.

O Caderno Pensar, que acompanha o jornal aos sábados, trouxe um mapa de 1616 na capa e, a seguir, matéria de duas páginas, acompanhada de outro mapa, de 1626. Ambos mostram o lendário caminho até as esmeraldas.

O texto completo segue abaixo e, ao fim, digitalizações das páginas do jornal.

SERRA DAS ESMERALDAS
O Espírito Santo a dois passos do paraíso

Esmeraldas. Esta é, com certeza, uma das palavras que melhor traduzem o sonho dos portugueses no Brasil nos primeiros séculos da colonização. Durante muitos anos uma diversidade de aventureiros, bandeirantes e sertanistas embrenhou-se pelo nosso sertão em busca de riquezas incontáveis que os aguardavam em algum lugar desconhecido. E, na rota dessa busca, estava a Capitania do Espírito Santo.

Relatos do primeiro século de colonização, provindos de índios e aventureiros portugueses, deram início à crença de que haveria riquezas no Brasil iguais às das minas de prata do Potosi, na América espanhola. A lendária proximidade entre o Potosi e o sertão brasileiro levou à crença no Sabarabuçu, uma Serra de Esmeraldas à espera dos portugueses. E graças ao contato dos sertanistas com os nativos, dos quais se obteve grande conhecimento nas longas expedições pelo sertão, foi possível realizar as entradas em busca de metais e pedras preciosas.

Um dos principais sertanistas foi Marcos de Azeredo, habitante da Capitania do Espírito Santo no início do século XVII. Azeredo encontrou algumas pedras verdes no sertão, as quais foram levadas para a Metrópole e animaram a corte portuguesa. Ele teria guardado o registro do itinerário seguido o que, transmitido adiante, serviu de roteiro para sertanistas das gerações seguintes.
Os mapas do Brasil seiscentista foram influenciados pelo conhecimento adquirido dos nativos, principalmente na representação do interior do continente, além de serem baseados nos diversos relatos enviados à Coroa sobre essas regiões, inclusive o de Marcos de Azeredo. Essas informações foram utilizadas pelos cartógrafos da Idade Moderna e criaram uma identidade visual para a Capitania do Espírito Santo. A lenda da Serra das Esmeraldas foi, assim, difundida e colocou o Espírito Santo entre as regiões mais cobiçadas da América colonial.

As crises econômicas também incentivaram as entradas de meados do século XVII, gerando um imenso interesse dos colonos pelas riquezas perdidas do sertão, e diversos conflitos políticos ocorreram entre os que disputavam as patentes das entradas. Mas o que levou as esmeraldas a ganharem tamanha importância? A grande quantidade de cristais de todas as cores de que davam conta nativos e aventureiros mudaria o interesse dos colonos, que inicialmente buscavam ouro e prata. Esses cristais, principalmente verdes, sugeriam a existência de maravilhosas riquezas perdidas, que poderiam ser encontradas, se procuradas da maneira certa.

O fascínio pelas esmeraldas também tem origem em tradições surgidas ainda na antiguidade e que se fortaleceram na Idade Média, relacionando as pedras verdes a temas religiosos como a castidade e a vida eterna. Essas crenças fariam com que Santo Agostinho identificasse esmeraldas nas margens de um dos rios que nascem no Éden, o Fison, nas suas descrições do paraíso terrestre.
A associação entre o Brasil e o Éden foi muito comum nos primeiros séculos da colonização da América portuguesa. Fortalecendo essas ideias, além dos relatos de indígenas sobre quantidades incontáveis de metais e pedras preciosas no sertão da América portuguesa, falava-se na existência de uma lagoa mítica, de onde saíam os principais rios do continente, que distribuíam essas riquezas pelo território brasileiro.

Apesar do aparente desejo de continuar acreditando na existência da Serra das Esmeraldas, com o passar das décadas os seguidos fracassos das buscas levariam à marginalização da lenda. Ela foi, porém, uma das lendas mais extraordinárias e duradouras do período colonial brasileiro, mesclando tradições indígenas e europeias, com reflexos na interiorização da colonização, estabelecimento de contato com tribos indígenas e aberturas de rotas pelo sertão.

A lenda também foi responsável pela aproximação de súditos da colônia com a Coroa. Marcos de Azeredo, por exemplo, recebeu por sua descoberta o hábito da Ordem de Cristo, que herdou os bens da Ordem Templária em Portugal. Esta era uma das maiores recompensas por serviço à Coroa naquele período.

Nessa época, diversos conflitos políticos ocorreram entre os que disputavam as patentes que davam permissão para as entradas ao sertão. Salvador Correia de Sá e Benevides, político influente na Coroa e membro do Conselho Ultramarino, assumiu em 1658 o governo da Repartição do Sul em, que envolvia Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e demais capitanias ao sul. Após o fim dos conflitos com os holandeses no nordeste, dedicou-se a encontrar a Serra das Esmeraldas, mas entrou em conflito com o governador da Repartição do Norte, que dizia ter direito sobre os territórios do Espírito Santo. A disputa era pelo direito às riquezas da região. Mesmo dedicando vários anos de sua vida a essa busca, Salvador não encontrou a Serra e as repartições se desfizeram em 1662.

Outros conflitos, como o que ocorreu entre o Capitão-mor José Gonçalves de Oliveira e o Donatário Francisco Gil de Araújo por toda a década de 1670, envolveram tantas camadas da administração imperial de Portugal que merecem destaque no estudo do império ultramarino português. O primeiro recebeu do Governador Geral do Brasil, na Bahia, a patente para realizar a jornada ao sertão. O segundo, que havia comprado a Capitania do Espírito Santo poucos anos antes, se sentiu no direito de realizar, ele próprio, a busca pelas esmeraldas. Com o apoio da Câmara de Vitória e do Governo Geral, Francisco Gil destituiu o adversário de seu cargo, mas José Gonçalves escreveu uma carta ao governo no Rio de Janeiro (um contrapeso ao governo na Bahia) e à Coroa, em Portugal.
A Coroa sempre utilizou o Conselho Ultramarino para tomar atitudes em seu império ultramarino e o Conselho decidiu a favor do Capitão-mor. Mas como garantir a execução dessas ordens, estando tão longe? Após anos de brigas e troca de cartas entre a administração imperial e a Coroa, Francisco Gil de Araújo realizou 14 entradas em busca das esmeraldas, segundo seu relatório de governo, sem qualquer resultado positivo.

Por fim, as grandes jazidas de ouro encontradas nesses territórios do interior do Brasil no final do século XVII obscureceram a crença nas esmeraldas. As descobertas mudaram, nos anos seguintes, a economia brasileira e portuguesa. Para o Espírito Santo, entretanto, essa mudança não foi muito positiva. Os territórios em que o ouro foi encontrado eram disputados por diferentes elites da América portuguesa, principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

A criação da Capitania de São Paulo e das Minas do Ouro, em 1709, veio como uma solução para a Guerra dos Emboabas (a famosa disputa pela região, entre paulistas e estrangeiros), e desmembrou definitivamente a região das minas gerais da Capitania do Espírito Santo, que ficaria limitada entre o litoral e uma região de floresta, ocupada por nativos contrários aos portugueses. O Espírito Santo perdeu, assim, a posse sobre as riquezas naturais, tão desejadas e disputadas durante o século anterior, e a maior parte de seu território para forças políticas vizinhas.

A Serra das Esmeraldas voltou a receber alguma importância ainda no início do século XVIII. Porém, com o passar dos anos e os constantes erros no descobrimento das pedras preciosas, ela foi lentamente abandonada. O desejo pelo fantástico moveu as expedições sertanistas por séculos, deu protagonismo ao Espírito Santo no período colonial, mas a Serra acabou por mergulhar em um esquecimento do qual saiu pouquíssimas vezes, até que seu brilho apagasse definitivamente.

Em razão da busca pela Serra das Esmeraldas, a Capitania do Espírito Santo pode ser considerada ponto importante na história das questões políticas e territoriais na América portuguesa. Por si mesmos e pelas forças presentes na América portuguesa, esses acontecimentos alteraram drasticamente o espaço e a história do Espírito Santo colonial, refletindo no que somos hoje.

Serra das Esmeraldas no Caderno Pensar de A Gazeta - Capa
Serra das Esmeraldas no Caderno Pensar de A Gazeta - Texto
Serra das Esmeraldas no Caderno Pensar de A Gazeta - Editorial


Novo texto publicado em http://fabiopaivareis.net/a-dois-passos-do-paraiso-materia-publicada-no-jornal-a-gazeta/

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Direto do Blog: Valarauko (Aos Seus Ouvidos) .

Esta semana saiu o resultado do Concurso Runas de Daeron, feito pelo Conselho Branco Sociedade Tolkien - entidade sem fins lucrativos criada para estudar e divulgar a obra fantástica do escritor, professor e filólogo J.R.R. Tolkien. Meu texto, com o título Valarauko (Aos Seus Ouvidos) foi o vencedor, o que é uma grande honra para mim.

O conto acompanha as conversas de um Balrog com o elfo Fëanor. Na mitologia criada por Tolkien em O Silmarillion, Fëanor se rebelou contra os deuses e, após sua morte, seu espírito amaldiçoado se recolheu nos salões de Mandos e nunca mais retornou para seus familiares. O Balrog (também conhecido como Valarauko) resolve contar sua história, desde a origem do mundo, para o elfo, pois acha que ela fará a diferença em sua vida. O texto segue abaixo na íntegra:

“A história que agora chega aos seus ouvidos, Fëanor Espírito de Fogo”, comecei eu a falar com o incompreendido elfo, “não é uma lenda, mas começou muitas eras antes de ter início o seu papel nesse mundo, e chegou ao seu fim, de certa maneira, eras após o seu recolhimento nos Salões de Mandos, de onde você se recusa a se retirar e a conversar com seus antigos parentes e amigos”.

Fëanor seguia a impassibilidade eterna que começou ao retornar para Aman, após a histórica morte numa luta contra diversos Valaraukar, entre os quais estava eu. Sentado, de pernas cruzadas e de cabeça erguida, mantinha porém os olhos fechados. “Conto-te isso porque sei que, aí sentado, ainda me escuta, e porque seus ouvidos ainda funcionam, mesmo que você deseje o contrário. Acredito que a história não seja longa, e a eternidade que nos aguarda me impede de acreditar que não terei tempo de terminá-la, já que pelo que me foi revelado após chegar ao fim o meu papel na História de Arda, Eru não está tão próximo de retornar. Assim, nosso tempo em Aman ainda é indeterminado e, mesmo que você não olhe para mim, estarei ao seu lado, contando-lhe uma história que pode te iluminar e reacender o fogo de seu espírito, que de muitas maneiras se assemelha ao meu, pois ainda há muito que você pode fazer.

“Durante a construção de Arda, ajudei os Valar por muitas eras, mas o poder de Melkor e suas palavras sujas falavam alto nos espíritos de fogo e, como muitos outros, fui atraído por suas mentiras e por seu desejo pela Luz. Assim, fui um de seus espiões entre os Valar, pois naquela época eu ainda podia abandonar a horrenda forma que assumi posteriormente. Não traí por maldade, pois amava os Poderes de Arda, mas pelo controle que Melkor era capaz de exercer sobre mim, mesmo enquanto virava suas costas para a Luz e procurava as trevas. E por muito tempo lamentei não conseguir abandoná-lo e viver no Oeste, ao lado de Arien, que agora é inalcansável.

“O Senhor do Escuro foi o primeiro a encontrar vocês nas praias escuras da Terra-Média” disse eu para Fëanor, me referindo aos filhos primogênitos de Eru, os elfos. “Na época, havia criado a fortaleza de Utumno e nós, os Valaraukar, a habitávamos e assumimos nossos chicotes de fogo, açoites terríveis que representavam nossa corrupção e com os quais aterrorizávamos o que víamos. Nós não éramos os únicos ao seu lado, pois muitos monstros ele criou e diversos outros espíritos carregou consigo através de suas palavras, para ocupar também a fortaleza de Angband. “Em Angband ficamos até que, certo dia, ouvimos um assustador grito de terror e desespero. Melkor estava de volta à Terra-Média e trazia consigo as Silmarils. Suas Silmarils”. Dessa vez esperei alguma reação de meu silencioso ouvinte, mas nem a menção às fatídicas gemas ele se remexeu ou abriu os olhos. Então, continuei. “Partimos de Angband como uma tempestade de fogo, pois durante a ausência de nosso senhor perdemos a capacidade de mudar de forma e a crueldade reinaria sobre nós para sempre. E foi com essa crueldade que chegamos a Lammoth – como foi chamado aquele lugar a partir de então – e espantamos a escuridão, a macabra Ungoliant.

“Foi após esses acontecimentos que os primogênitos de Ilúvatar retornaram das Terras Imortais, seguindo seus próprios passos, Fëanor. E você e seus filhos desnortearam o próprio Morgoth, destruindo um exército que tinha como objetivo tomar toda Beleriand, que já não existe. Mas o seu espírito de fogo, assim como o meu, te fez imprudente, e sua ira te enganou, pois ela não te permitiu ver o momento em que fora cercado por Balrogs. Você pode não se lembrar, pois nunca ouviu minha voz e minha forma hoje é outra, mas era de meu chicote que você se defendia no momento em que Gothmog, o terrível, te derrubou”.

Neste momento, foi possível sentir a ira daquele elfo e seus nervos e músculos ficaram claramente tensos. Sua morte, tantas eras atrás, ainda o incomodava. E mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda me lembro de nossa retirada após a chegada de seus filhos. Ele ainda respirava, e agora, aqui em minha frente, o tempo que fiquei em silêncio fizeram com que ele voltasse a se acalmar, e sua aparência voltara ao normal.

“Naquela era tivemos a Batalha das Chamas Repentinas que levou à morte gloriosa de seu meio-irmão Fingolfin, que encarou Morgoth frente a frente e o fez manco, além de Angrod e Aegnor, filhos de Finarfin, e inúmeros eldar que nunca mais retornaram a Beleriand.

“Aquela foi uma dura batalha para todos os elfos”. Parei novamente, olhando para Fëanor e pensando que sua morte prematura o poupou de assistir ao sofrimento de sua família. Não sabia dizer se ele se importava com eles, mas queria acreditar que sim. “E, depois disso, ficamos muito tempo nas profundezas de Angband, pois os primogênitos já não encaravam o Mal de frente, enquanto os homens, após grandes bravuras na última grande batalha, ganharam preferência nas maldades maquinadas por Melkor. Mas foi da união dos dois filhos de Eru que veio minha próxima participação na história do mundo, pois estava no grande salão quando Beren e Lúthien fizeram a Coroa de Ferro cair da cabeça de um inimigo adormecido e roubaram uma das Silmarils”. Não achei que isso interessaria a Fëanor, mas ainda me lembro de fitar toda a beleza da filha de Melian antes de meus olhos fecharem – beleza que não verei mais antes do fim de tudo, pois ela acompanhou Beren no Destino dos Homens.

“Mas aquele não foi o fim da promessa de seus filhos e seguidores, Fëanor, pois o desejo de Maedhros pelas outras Silmarils trouxe apenas mais morte entre os elfos. O Maneta, como Beren ficou conhecido, levou grandes exércitos para derrotar Angband, assim como seus irmãos e até mesmo Turgon saiu de Gondolin, o reino oculto. Porém, quando a vitória dos exércitos dos elfos e dos homens parecia possível, surgiu não só a traição de Ulfgang e dos orientais, mas também Morgoth, no último momento, esvaziou seus porões e liberou todas as suas criaturas. Eu novamente acompanhei o Grande Lagarto e participei da chacina – nenhuma palavra pode narrar o que aconteceu naqueles dias. Mas quando Glaurung foi ferido por Azaghâl, acompanhamos Gothmog na luta contra Turgon e Húrin, e vi quando o Rei dos Balrogs derrotou Fingon e a chama branca de seu espírito queimou através de seu elmo rachado.

“Com a queda de Gothmog pelas mãos de Glorfindel, soube que deveria partir ou morreria traindo minha própria natureza e meu criador. E minha oportunidade surgiu em breve, pois Ëarendil, com a Silmaril de Thingol, atravessou os mares intransponíveis e pediu perdão aos Valar para homens e elfos. Unindo assim seus exércitos, os Poderes de Arda atravessaram o grande mar e derrotaram Morgoth de uma vez por todas.

“A Guerra da Ira foi unilateral, pois os exércitos do Senhor do Escuro não tiveram qualquer chance diante das hostes de Valinor. Quase todos os Balrogs pereceram ali e, quando eu deveria ter me entregado e me rendido aos Valar, fugi envergonhado para o leste, longe da beleza e do esplendor daquele exército que brilhava sob os raios do sol, meu antigo amor. Não posso te contar sobre a queda de Ancalagon, o poderoso dragão alado, pelas mãos de Eärendil, pois não estava lá – estava me escondendo nas profundezas de Hithaeglir, as Montanhas Nebulosas. Estava decidido a me esconder ali até o fim dos tempos, e responder pelos meus atos na Última Canção.

“Mas soube depois que foi naquela batalha que tudo chegou ao fim para Morgoth. Depois de ser aprisionado, as Silmarils de sua coroa foram retiradas e guardadas por Eönwë.” Nessa hora, mais uma vez percebi seu espírito inflamar, pois ninguém ainda havia ousado contar a ele o destino de suas gemas tão preciosas. Mas ele podia imaginar o que estava por vir, pois sabia da morte de Mardhros e Maglor – seu juramento fora em vão. “Nada disso eu vi e por muito tempo permaneci adormecido sob as Montanhas Nebulosas.

“Meu sono não alcançou o objetivo que eu pretendia, pois os anões cavaram fundo demais e Durin VI não descansou em sua busca por mithril até me despertar. Não podia aceitar ser desperto antes do fim dos tempos, porque minha vergonha era imensa e a ira do meu espírito de fogo queimou tudo ao redor. Estava decidido que meu papel neste mundo era cruel e pouco restou dos anões daquela época além de suas construções. Tempos depois eles retornaram confiantes e, enquanto orcs e goblins me deixavam descansar, os anões agitavam o silêncio da minha escolhida tumba.

“Não participei do fim de Balin, tão corajoso, mas foi poucos anos após sua morte que chegou a minha salvação. Essa história deixarei para amanhã, pois apesar de você não querer, sinto ainda seu espírito queimar pela eterna perda das Silmarils. Descanse mais um dia”.

Quando saí da sala em que Fëanor habita sozinho, tive uma longa conversa com Námo, de quem me afeiçoei bastante após meu retorno para Aman. Ele não me oferece compaixão pelo que fiz em Arda, mas me mostra como ainda hoje realizo os desígnios que Eru tinha para mim, desde o começo. Por causa dele acredito que posso alcançar mais fundo no destemido elfo que os demais, e nunca desisto de mostrar para as almas atormentadas que algumas coisas estão além dos nossos desejos.

Námo e eu fomos juntos a Valmar para pedir sabedoria, força e compreensão para o que me esperava no dia seguinte, porque ainda hoje a noite e a escuridão ofuscam o meu espírito e a falta de Arien nunca deixou de incomodar meu coração. Lá, Vairë me confortou, porque o dia seguinte já havia sido escrito eras atrás e os Valar e Eru estavam sempre comigo.

Meditei o resto da noite sem lua e esperei o amanhecer, que mais uma vez me trouxe esperança. Naquela manhã, Námo me saudou com um sorriso e se afastou. Entrei na sala que Fëanor tomou para si e ninguém mais se aproximou. Abandonei meu novo corpo e deixei meu espírito de fogo preencher a sala. Naquele momento, mais que em todos os outros, fui um Valarauko. E então, continuei minha história.

“Um dia, Fëanor, senti a força de um espírito antigo se aproximar das minas de Moria. Aquele era um Maia muito antigo e muito sábio, e eu o reconheci. Olórin era seu nome, e eu vi nele a minha salvação: não havia outra criatura capaz de por fim ao meu espírito na Terra Média e, disposto a não deixar o destino me escapar, saí do meu descanso profundo e fui ao seu encontro no último salão de Moria.

“Ao perceber que seus companheiros voltavam e que não tinham chance de sobreviver a esse encontro, Olórin golpeou a ponte e me derrubou no abismo. Mas a queda não seria o suficiente para me destruir, e não pude deixá-lo escapar: puxei-o comigo para baixo.

“Quando chegamos ao fim, meu fogo se apagou e mais uma vez temi a fúria dos Valar e de Eru, mas durante a queda olhei Olórin nos olhos e sei que ele sentiu meu sofrimento, pois passou a se dedicar completamente ao meu fim, não com ódio, mas com a compreensão de quem sabe o que deve ser feito. Por sete dias eu fugi, por medo da decisão que eu mesmo havia tomado, e por sete dias meu ‘inimigo’ me perseguiu. Por fim, percebi que fugia porque havia um lugar e uma hora certa para o meu fim, e que meu companheiro não merecia ficar para sempre nas profundezas do mundo. Assim, subi longas escadarias, perdidas no tempo, para nos levar ao lugar mais alto possível. E foi ali, no pico de Zirak-zigil, que olhei Olórin novamente nos olhos, meu espírito de fogo novamente explodiu, abri o peito e abraçei a morte.

“A escuridão me dominou e me encheu de medo, mas logo abri os olhos, e estava em um lugar claro e calmo. Estava na torre de Oiolossë e Manwë estava ao meu lado. Naquele dia Eru falou através dele e me esqueci de muitas coisas que havia visto e me lembrei de muitas outras que havia esquecido. É aqui, Fëanor, que a história interessa a você particularmente Preste atenção.

“Pedi perdão a Eru por tudo o que havia feito em Eä, por ter contribuído para destruir o mundo que meu criador havia imaginado. Mas ele me disse: ‘Não peça perdão, Ainur, pois você cumpriu o seu papel. Saiba que na Canção que criamos no início do mundo, cada um teve uma parte e, desde lá, seu destino estava escrito. Não tema mais a escuridão, porque agora tem muitas coisas a fazer para o bem de Arda’. Soube então que Olórin, que me libertou daquela forma cruel e me trouxe a redenção, deveria retornar para continuar sua missão, e perdi permissão para ser eu mesmo a levá-lo. Deixei-o novamente na Torre de Durin, onde caímos juntos. Meu espírito queimou sua roupa, mas seu corpo permaneceu intacto. Deixei-o apenas quando chegou Gwaihir, o Senhor das Águias, e o levou embora.

“Ao voltar, passei muitas horas na companhia de Manwë e os outros Valar, e aprendi muitas coisas. Veja: fui cruel porque tive medo e fiz péssimas coisas porque precisava cair antes de elevar meu espírito ao auge. Se não passasse por tudo o que passei, não teria hoje a compreensão da extensão do poder de Eru.

“Andando por Valmar, reconheci alguns com quem lutei nos velhos tempos, mas já não me envergonhava, pois tanto eu quanto eles sabíamos que cumpríamos nossos papéis”. Nessa hora, voltei a controlar meu espírito humildemente e reassumi minha forma física. “Você percebe então, Espírito de Fogo? Assim como eu tive o meu papel, você também teve o seu. Se não fosse pelas suas obras, Morgoth não teria se revelado. Suas Silmarils levaram à derrota do Inimigo e algumas consequências dos seus atos estão relacionadas até mesmo ao recente fim de Sauron, tenente do antigo Senhor do Escuro. Você já pagou pelos seus atos e pode ainda fazer muitas coisas boas. Levante-se agora, e venha comigo receber Olórin e sua sobrinha Galadriel, que retornam após uma longa e árdua batalha. Chegou a hora de recomeçar sua vida”.

E, então, Fëanor abriu os olhos e sua glória mais uma vez iluminou as vastas planícies de Valinor.

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Graduado pela UFES, mestre pela PUC-SP e doutorando em História pela Universidade do Minho, Fabio Reis está em busca de novidades e experiências em áreas distintas.
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